Texto

ORAÇÃO DA BAILARINA

Autor: Pe. Irala

Venho a Ti, Senhor, inclino meu corpo diante de Ti num gesto de graça. Trago em oração tudo que me move: meus pés, a cabeça, as mãos, o meu corpo.

Meu corpo, meu corpo, meu corpo, meu corpo...

Meu corpo sou eu, minha alma é a dança; a música: o clima; a luz: o arco íris.

Te trago palavras de músculo e vida.

Eu sei que no mundo há quem não entenda o meu linguajar e não compreenda que falo, que expresso, que digo e que grito.

Mas Tu compreendes, Senhor, os meus gestos.

Mas Tu compreendes Senhor a minha alma.

Momentos eu tenho em que sinto um vazio, vazio profundo, silente e escuro e eu apalpo com as mãos a vida invertida do nada que grita, que clama e reclama...

E nesse momento eu sinto uma força sulcando-me as veias, os braços, as pernas e sinto-me leve e acordo a saudade de ser pena de ave, de voar nos ares e então ressuscita meu corpo do nada e brinca e se atrela na estrela mais alta, mais linda, mais pura...

E assim pelos ares eu sinto que às vezes eu não fui criada pra morar na terra.

Meu Deus, a dança se faz de exaustão e cansaço: é a parte de terra que me corresponde; é a parte do NADA que a mim só pertence; é a parte do barro do que fui criada.

Meu Deus, não me deixes sozinha nos ares: faz que eu supere o limite do corpo, meu corpo, meu corpo, meu corpo, meu corpo: meu corpo sou eu: não me deixes só.

Quando a bailarina dançou tão bonito e Herodes cumpriu a horrenda promessa e prêmio da dança foi numa bandeja a cabeça de João, o grande profeta, todas nós dançamos a dança macabra, a dança do corpo vendido, entregado, a dança abjeta, do objeto do corpo.

Meu corpo sou eu: “me fazem” objeto; me usam, me olham, me despem, me absorvem, me compram, me vendem, me trocam, me esquecem, me querem, me sugam, me puxam, me espremem, me fazem objeto, me fazem abjeta.

Mas eu não me entrego e danço sozinha rasgando o infinito do imenso vazio do nada e Te encontro: encontro teu dedo indicando o caminho contando meus passos marcando as entradas na coreografia do imenso cenário de todo o universo, da vida mais plena.

Meus Deus, meu Feitor, meu Pai e meu Tudo me deste a linguagem dos privilegiados, o idioma que um dia, na vida futura falarão os corpos dos ressuscitados.

Fizeste-me um anjo, um pássaro, uma ave: escuta meu grito de músculo e raça:

Meu corpo sou eu, sou eu quem te adora.